Fyre Festival e a vida de mentira pelas redes sociais

por Daniele Polis
Fyre Festival e as redes sociais

Oi, gente!

Assisti nesse final de semana o documentário Fyre Festival no Netflix, e ele me fez pensar em muitas coisas – e muitas mesmo. Coisas que completam o que estou pensando já tem alguns meses e que eu resolvi escrever aqui para verbalizar tudo que estava na minha cabeça.

Há muito tempo venho me questionando o verdadeiro sentido das redes sociais – principalmente porque trabalho com isso.  Você já parou para se perguntar o que você vê nas redes sociais é verdadeiro? O que é realmente verdade?

Eu comecei a me perguntar isso quando fui no evento e vi uma menina que era super descolada, legal e amigável no Instagram isolada em um canto, sem querer conversar com ninguém e sem dar muita atenção à nada. Fui ver depois o que ela postou do evento e adivinha? Ela postou que foi um evento maravilhoso e que ela se divertiu horrores. Bem, se o conceito dela de diversão é ficar isolada, sozinha e pegar comida só pra tirar foto sem provar nada e dizer que tudo estava maravilhoso então ela se divertiu mesmo.

Claro que ninguém quer ver o lado ruim da vida nas redes – a gente já tem nossos problemas, nossas neuras e nossos medos, não é? Mas aí que está o problema: o que a gente tem visto por aí não é real. E existe muita diferença entre colocar o lado bom e o lado mentiroso da vida nas redes. E é aí que entra o Fyre Festival Documentary – e porque ele é essencial para a gente entender o que acontece nesse mundo de faz de conta nas redes sociais.

 

O que foi o Fyre Festival?

Idealizado pelo cantor JaRule e o empreendedor Billy McFarland, o Fyre tinha uma proposta de ser um festival dos sonhos: um final de semana em uma ilha privada nas Bahamas, hospedagem de altíssimo luxo, gente bonita, comida e bebida feita por chefs premiados e um line-up musical excelente. Seria tipo um Coachella na praia e muito mais rico. Você pode ver aqui pelo trailer do que tô falando.

O Billy McFarland aparecia em suas redes dirigindo carros de altíssimo luxo, em festas super exclusivas, tomando bebidas mega caras em companhias de grandes celebridades. Quem não queria estar num evento que esse cara idealizou?

Como as pessoas gostam de exclusividades e eventos, o Fyre Festival investiu pesado no marketing para lançamento. Eles levaram um time de super modelos como Bella Haddid, Chanel Iman, Hailey Balwin e muitas outras para as Bahamas, na ilha que era do Pablo Escobar, onde elas andavam de lancha, jet-ski, mergulhavam naquelas praias paradisíacas e se divertiram muito em um cenário de filme.  A equipe que fez o vídeo merece muito o destaque aqui: eles fizeram um trabalho incrível demais e até eu que não gosto de praia fiquei com vontade de ir para o Fyre Festival.

Assim que o evento foi anunciado, os ingressos se esgotaram em 48 horas. Várias modelos e muitos influenciadores publicaram sobre o evento – Kendall Jenner, por exemplo, recebeu US$250 mil para publicar uma foto no seu perfil. E os ingressos para o evento custavam US$500 por dia os mais baratos, e as experiências VIPs chegavam aos US$12 mil. Conseguiu ter uma ideia de valores?

Só que aí vem a treta toda: o festival não entregou nada do que prometeu. Não existiam essas acomodações, foram vendidos muito mais ingressos do que gente que cabia, isso sem contar que o que era para ser em uma olha privativa foi mudado pra um resort em uma ponta de uma ilha – e aqui vale destacar a alteração digital da imagem para parecer que o lugar era uma ilha mesmo. Isso sem contar na quantidade de dinheiro que investidores perderam, trabalhadores das Bahamas que não receberam pelos dias trabalhados (e foram mais de um mês de trabalho no sol!) e os funcionários da Fyre saíram como os pilantras da história.

Resumo da ópera: os organizadores estão sendo processados por fraude e extorsão.

Fyre Festival e as redes sociais

Imagem: Reprodução @bellahadid

E o que isso tem a ver com as redes sociais?

Tudo. Absolutamente tudo.

O Fyre Festival vendeu a imagem de tudo que uma pessoa quer publicar nas redes sociais: lugar lindo, gente bonita, comidas importantes e festas super bombadas. É só você ver como há muitas e muitas ações relacionadas à festivais como Lollapalooza e Coachella – e, vamos combinar, tem muita gente que vai só para tirar foto e se achar dentro de uma tendência. Então imagina chegar em vôos privados, ficar em cabanas sustentáveis luxuosas, comer pratos dos melhores chefs e fazer muitos brindes com pôr e nascer do sol?

Foi vendido tudo que uma pessoa quer ter no Instagram.

Além disso, temos o lado do negócio também: a responsabilidade de quem divulgou o evento. E eu não falo só da organização não, mas também de todos os influenciadores que publicaram a propaganda em seus perfis sem sinalizar. Tem gente que acha que não é nada demais não indicar quando um post foi pago para ser publicado na sua conta, e já passou da hora das pessoas problematizarem isso sim! Quem publicou sobre o evento sem sinalizar que se tratava de publicidade tem responsabilidade também.

E vamos aproveitar e falar sobre publicidade em blogs e redes sociais. Desconfie de quem não sinaliza publicidade. Além de ser crime (você pode denunciar no CONAR), tem a questão moral também. Não tem nada de errado receber dinheiro para publicar sobre algo, então não julgue um influenciador por ter aceitado uma campanha. O que você tem que analisar é se esse produto tem alguma coisa a ver com o perfil que o influenciador tem.

Eu mesma já recusei vários pedidos de publicidade por ser de produtos ou que não gosto, ou que não conhecia. E eu conheço muitas outras criadoras de conteúdo que têm a mesma postura, e sempre sinalizam também publicidade quando o conteúdo foi pago. E, acredite, se o conteúdo for do mesmo universo que os produtores de conteúdo ninguém vai reclamar. Mas vão reclamar sim se você for tipo a Xuxa usando Monange.

Além disso, seguindo nas redes sociais, um dos personagens principais do documentário fala algo interessante: quem olhava as fotos dele no Instagram poderia pensar que ele estava tendo o melhor trabalho do mundo. E como não achar vendo essa foto ou essa aqui? Enquanto isso ele estava sofrendo tentando impedir um fiasco a todo custo e tendo diversas crises de stress.

Aí vem a minha pergunta: quantas vezes você já viu ou já postou alguma coisa maravilhosa em uma rede social quando por dentro você sentia uma merda?

 

Das coisas boas das redes sociais

Nem tudo é ruim. A proprietária de um resort responsável pela parte de alimentação, que pagou os funcionários que trabalharam do seu bolso, já que o Fyre Festival não pagou absolutamente nada do que devia, faz um depoimento super emocionado no final. Ela disse que tirou de suas economias para não deixar seus conterrâneos sem o dinheiro que merecia, até porque ela quem morava ali e as pessoas a cobravam.

Depois do documentário uma campanha foi feita,  e um site de vaquinha online já registrou quase o dobro da meta para pagamento à ela. Claro que esse dinheiro deveria ter sido pago pelo Billy McFarlan, mas achei uma atitude super legal das pessoas, porque no final a proprietária foi uma pessoa honesta.

 


Vale muito a pena assistir o documentário. Eu ainda estou tentando absorver as coisas que vi no documentário, porque na minha cabeça correta não entra como uma pessoa pode ser tão manipuladora e dissimulada. Como é possível enganar tanta gente assim, e sem nenhum remorço.

E fica aqui meu pensamento: o quanto você vê de verdade nas redes sociais? Eu sempre sou honesta e e posto a minha vida de verdade – inclusive na minha bio do Instagram está lá “conteúdos da vida real”. É a minha vida ali.

É muito fácil ser ludibriado pela vida linda das redes sociais.

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